
Parece difícil de acreditar, no entanto, é mais comum do que imaginamos. Uma criança que não gosta de ler? Pois é. Essa criança habita uma infinidade de lares, não só no Brasil, mas no mundo. E se você conhece uma assim, ou se ela mora na sua casa, pronto! Está aí um grande desafio que você pode tomar para você! Que tal se dedicar em 2026 a fazer parte dessa mudança?
O hábito da leitura é construído diariamente e desde muito cedo a criança pode se interessar por livros se a família oportunizar o contato com eles, se alguns minutos do dia forem destinados à uma contação de história, se a criança perceber os adultos da casa lendo, se a leitura for de fato valorizada por quem convive com ela.
Mais tarde, na fase da educação formal, a criança passa a ter contato com a leitura através da escola, em rodas compartilhadas com seus colegas e professores, através de momentos na rotina destinados para a escolha de livros na sala de leitura ou biblioteca, quando livros paradidáticos são adotados de forma obrigatória para o ano letivo e, devagar, essa hábito vai ficando cada vez mais interiorizado. Mas no meio desse caminho, muitas interferências podem levar à um desencantamento pelo hábito de ler.
Um fator que contribui para isso é a sensação constante de aceleração do tempo, advinda das novas formas de comunicação, especialmente mediadas por redes sociais. Conversamos e interagimos menos no mundo ao vivo, fazendo com que nossa escrita seja mais rápida e abreviada. Consequentemente, é solicitado cada vez menos do interlocutor a escrita e o repertório, duas funções potencializadas pela capacidade de ler livros e de ler o mundo.
Nesse sentido, conflui também para o desencantamento pela leitura, o avanço exponencial do acesso à internet, jogos e tecnologias, bem como o tempo dedicado à esses recursos na vida de uma criança. As telas são convidativas e as propostas de interação altamente viciantes, provocando ansiedade e uma nova forma de se relacionar com a realidade. O processamento veloz de informações que essas interações exigem, traz para a criança uma sensação de urgência: tudo precisa acabar logo e as coisas precisam se resolver num passe de mágica. Não há espaço para a espera.
Como ler um livro assim? Onde se conjugam a paciência em folhear as páginas, ler com atenção integral, fazer as pausas para a compreensão, digerir a história, procurar sinônimos no dicionário para o entendimento de um parágrafo? Um outro fator é a obrigatoriedade da leitura - em espaços escolares - de livros com temáticas que não interessam àquela criança, associada à não oportunização - em casa e pela família - de livros e experiências de leituras que a criança de fato escolha para si.
Agora, sabendo que essa criança está desiludida com a leitura e de tudo o que colaborou para isso ocorrer, trago seis dicas de mudanças que você pode proporcionar no dia-a-dia dela e que vão te ajudar a vencer o desafio de trazê-la de volta para o universo literário.
1. Espaço
Embora nem toda a casa seja grande e considerando as diferenças econômicas entre as famílias, sempre há como organizar um espaço para os livros. Pode ser uma pequena estante, uma prateleira, uma caixa colorida, um tapete com a pilha de livros em cima, não importa: os livros precisam estar ali, à mão e à disposição, para que a criança se sinta convidada a ter contato com eles.

Mesmo sem muito tempo ou habilidades manuais, você pode deixar esse cantinho acolhedor. Um tecido leve, um enfeite relacionado ao tema da leitura, uma almofada, tudo pode colaborar para deixar o lugar bacana.
2. Rotina
Para que a leitura se torne hábito, há alguns pilares importantes como frequência, paciência e repetição. Não é de uma hora para outra que o milagre acontece! Portanto, separe no dia um momento em família para a leitura e contação de uma história. Pode ser antes da escola, pela manhã ao acordar, antes de dormir, durante à tarde enquanto juntos comem uns biscoitos. E todos os dias você deve repetir esse momento, com calma e foco.

A criança precisa entender que a leitura vai acontecer diariamente e que ela pode ser divertida. Então, durante o momento da leitura, traga um clima leve e gostoso e não transforme tudo naquela situação que mais parece uma tarefa a ser cumprida de uma lista enorme de obrigações.
3. Ritmo
Cada criança apresenta um ritmo de leitura e isso depende não só da faixa etária, mas do hábito de ler estar interiorizado e dos livros que são lidos. Alguns livros, mesmo adequados à idade, podem trazer temas que a criança tem dificuldade de compreensão, não da linguagem, mas do que é trazido nas entrelinhas ou ainda, das emoções que são despertadas e que as movem por dentro.
Por isso, é importante observar quais são as dificuldades e mediar a leitura, sem jamais recorrer à punições quando ela não consegue terminar o livro ou quando sua leitura é pausada demais, seja por questões relativas à alfabetização, seja porque as emoções precisam ser nomeadas e trabalhadas a cada trecho.
4. Livros
A parte central da questão são os livros escolhidos. É importante que os títulos sejam adequados ao perfil leitor. Se uma criança está na fase de alfabetização, priorize livros pequenos, com ilustrações e letras em caixa alta. Frases muito compridas ou histórias muito elaboradas podem dificultar a compreensão no início.

Quando a criança desenvolve uma leitura mais autônoma, já é hora de trazer livros um pouco maiores, que ainda possuem algumas ilustrações, mas que o texto é o carro-chefe. É hora de deixar a criança escolher o que deseja ler e você pode ofertar o que cabe no seu bolso e que ao mesmo tempo agrade os interesses dela.
Também é hora de fazer a carteirinha da criança numa biblioteca pública. Ela vai se sentir importante com esse documento oficial e vai poder te pedir para levá-la até lá para alugar um livro, o que pode se transformar em mais um momento especial da semana.
5. Conversas
Converse com a criança sobre os livros que ela está lendo, se interesse pelo que ela se interessa. Essa prática estreita laços e torna a leitura uma atividade afetiva.Compartilhe com ela suas leituras também. Ela pode não entender exatamente a temática do seu livro de cabeceira do mês, mas com certeza ficará feliz em saber que você lê e que é possível trocar experiências sobre o assunto.
Pesquisem juntos livros para colocar na lista de desejos de cada um e, quando possível, dê à ela um livro dessa lista, no aniversário ou em outra data comemorativa. Isso traz sentido para os desejos partilhados. Depois, vocês podem marcar um lanche para conversarem sobre como foi a experiência.
6. Passeios
E por fim, mas não menos relevante, frequente com essa criança as bibliotecas, livrarias, feiras e bienais. Vá a saraus, clubes e rodas de leitura e carregue essa criança com você. Tarde de autógrafos? Compareça e a leve contigo. Tudo Isso ampliará o repertório dela. Imagina que demais a criança conhecer uma autora do livro que ela tanto gosta? Ou ainda, pegar marcadores na feira de livros e começar uma coleção? São as vivências concretas relacionadas à literatura que podem transformar a realidade.

É fundamental que você mostre à ela a sua paixão pelos livros. A aprendizagem se dá pela imitação e, se depois de tudo isso, ela ainda não gostar de ler, pode ter certeza de que ao menos ela vai perceber os livros com um outro olhar, mais cuidadoso e apurado.
*OBS: todas as fotos e vídeos são do acervo da autora.
Texto disponível na revista Voo Livre https://revistavoolivre.com.br/revista-voo-livre-ano-6-no-64-fevereiro-de-2026/