
Todo o adulto já foi criança um dia.
Esse parece um pensamento óbvio, mas para uma criança pequena, pode ser uma ideia pouco concreta. O vir a ser, essa história de crescer e ficar assim, tão diferente, e ao mesmo tempo tão igual, realmente é coisa de se espantar.
Não à toa as biografias são imprescindíveis para aproximar a infância da vida adulta. Na literatura, esse gênero tem um papel fundamental para as crianças: apresentar, de forma afetiva, gente de carne e osso. Pessoas que sentem, que comem, que dormem, que sonham, que estudam e trabalham, pessoas comuns, que nascem e vivem um tempo como bebês, que depois crescem e vivem a infância, e que um dia crescem ainda mais, se tornando figuras marcantes. Gente que morre e que deixa uma história.
Quando uma criança toma contato com uma biografia indispensável, tem diante de si um exemplo a ser seguido, às vezes uma inspiração, alguém que, apesar de tudo, teve um papel relevante na sociedade, afinal não estaria publicada num livro se não fosse lá grande pessoa.
O fato é que as biografias são como espelhos ampliados da vida.
Por meio das biografias, é possível aprender sobre a importância dessas figuras, os valores e as ideias que carregavam consigo; percebe-se o mundo por outro olhar e isso é de uma riqueza impressionante. Quanto mais pontos de vista pudermos proporcionar para as infâncias, mais chances de empatia estamos criando e, consequentemente, futuros mais amorosos.
As histórias reais de vida, contadas de maneira acessível e comumente acompanhadas de fartas ilustrações nos livros, são um caminho bonito para compreender o que é ser humano. Para as crianças maiores e adolescentes, as biografias podem ser exemplos quando estes nos faltam na realidade cotidiana. Há histórias que abrem portas: quando lemos sobre alguém ter realizado um feito importante, sobre uma vida com propósito, sobre lutas que acreditamos necessárias, sentimos que nós também podemos ousar e que os sonhos, que julgamos impossíveis, podem de fato se materializar.
Trago nesta coluna algumas indicações preciosas de biografias, começando pelo livro “50 Brasileiras Incríveis”, de Débora Thomé, pela editora Galera. Esse é um livro que toda criança deveria ler ou, se ainda não tiver autonomia para isso, que um adulto pudesse ler para ela. Numa linguagem gostosa, que mais parece uma conversa, a autora conta as histórias de mulheres brasileiras como Maria da Penha, Nise da Silveira, Elis Regina, Marta, Irmã Dulce, Chica da Silva, Zuzu Angel, entre outras. O livro conta com tipografia criada só por mulheres e ilustrações de página inteira de artistas incríveis como Eva Uviedo, Juliana Fioresi, Mariana Cagnin e mais outras manas. O livro ainda possui páginas finais em branco, com espaços para a criança escrever as biografias de suas heroínas próximas e colar fotos delas. Um livro que permite o desejo de ser mais e a admiração!

Há duas lindas biografias sobre Frida Kahlo que merecem leitura. “Frida” é um livro para crianças entre 6 e 8 anos, de Jonah Winter, com ilustrações de Ana Juan, pela editora CosacNaify. A história é condensada em pequenas frases como “(...) Mas Frida não chora nem reclama. Em vez de chorar, ela pinta quadros que choram por ela.” , o que faz da narrativa biográfica uma verdadeira potência, que explode em cores nas ilustrações de página inteira ou páginas duplas, numa sensibilidade ímpar.
A outra dica para a mesma biografia destina-se a crianças acima de 10 anos. O livro “Frida Kahlo - Uma Biografia”, de María Hesse, pela editora LP&M, é ricamente ilustrado pela autora, que é artista gráfica em Sevilha, na Espanha. Essa biografia é bastante poética e traz trechos reais do diário de Frida, escritos em tipografia que imita a caligrafia, além de diversos depoimentos que ela deu em vida, numa mistura de gêneros literários que se complementam e aprofundam a experiência da leitura. Trago aqui um excerto retirado de parte do diário autobiográfico: “(...) quem diria que as máculas vivem e ajudam a viver.” A capa, desenhada pela autora, já dá um spoiler da beleza do livro.
Não posso deixar de falar do livro que já é quase um clássico “Eu sou Malala”, da editora Seguinte, por Malala Yousafzai em colaboração com Patrícia McCormick. Gosto especialmente da edição juvenil, recomendado para leitura à partir de 11 anos. Esse livro é um manifesto, uma canção pela liberdade e pelo direito à educação, especialmente das meninas, em todo o mundo. Malala, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, fez de sua história uma luta incansável pelo direito de toda a criança ir à escola para estudar e o livro traz a história real de sua vida, de uma forma intimista e forte. A edição conta com fotos do arquivo pessoal de Malala, um mapa da região onde viveu, um glossário acessível para entender termos da cultura árabe que estão presentes na narrativa, páginas destinadas à uma cronologia e ao contexto histórico do Paquistão e do Principado de Swat, além do prólogo que é um soco no estômago. Necessário e Imperdível.
“O Diário de Anne Frank” dispensa comentários. Aqui a biografia é escrita em primeira pessoa pela menina que revelou, em segredo, de forma sensível e determinada, como era a sua vida, seus medos e alegrias, durante o longo período em que permaneceu escondida dos nazistas junto de sua família. Enfrentando a fome, o confinamento, o tédio e a ameaça constante de morte, essa biografia é o retrato contundente da vulnerabilidade humana. Há muitas edições e uma que gosto, chamada de definitiva porque aprovada por Otto H.Frank, único sobrevivente da família durante o Holocausto, é da editora Record. Essa edição é acessível em preço, tamanho de fonte e espaçamento - que facilitam a leitura - e na linguagem, com tradução de Alves Calado.
Recomendo fortemente a biografia “Dorina viu”, da autora Cláudia Cotes, publicada pela editora Paulinas, porque traz texto e ilustrações também em braile, o que pode acender a curiosidade das crianças que dispensam esse recurso, gerando boas conversas sobre a temática; ou ser lido por quem realmente precisa deles. Dorina Nowill foi uma mulher incrível, que trabalhou durante toda a vida para a criação e implantação de leis, instituições e campanhas voltadas às pessoas com deficiência visual. Com ilustrações de Dimaz Restivo, o livro é indicado para crianças de 8 a 10 anos e mostra como, apesar das diferenças, podemos conviver em harmonia, garantindo direitos.
Outra dica bacana é o livro “Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença”, de Jeanette Winter, pela Companhia das Letrinhas. Aqui encontramos a vida da ativista sueca Greta Thunberg, sua luta pela preservação da vida na Terra e contra as grandes potências mundiais, responsáveis pelas mudanças climáticas que impactam a realidade de todos. O livro acompanha Greta desde sua rotina simples na cidade em que vivia até se tornar a mulher que é hoje, engajada em todas as causas ambientais importantes como derretimento de calotas polares, monopolização de sementes, extinção de animais, falta de ajuda humanitária em contextos de guerra, etc. Mais atual, impossível!
Termino ressaltando o trabalho belíssimo de duas autoras brasileiras: Luciana Alvarez e Cinthia Rodrigues. Elas escreveram “21 Histórias de Estudantes que Mudaram a Escola”, publicado pela Saíra Editorial, um livro acessível e atual, que traz histórias de jovens na luta por direitos, dentro do contexto escolar. Destinado à adolescentes a partir de 13 anos, esse livro tem ilustrações de Fernanda Ozilak e faz um convite para que o leitor reflita sobre a educação e as mazelas que assolam seu cotidiano, além de incentivar que conte também sua história. Aqui, o livro se torna uma verdadeira ferramenta de empoderamento das juventudes!
