Imparável

Sua fome persegue meus pés: 

teimosa, insisto a cada dia que chega

- passo um batom no meio da cara

me encho da cor de um vestido -

algumas sombras contornam a rotina.

Ruínas do futuro que não sonhei

e ainda choro no seu aniversário.

Meus cabelos deitados na tua barriga [ miragem ].


Meu filho berra

: lembro das vezes para sempre

em que você nunca estava.

Chamo seu nome dentro da cabeça

- abismo nas pontas dos dedos -

eu cresci na tua falta.

— Não se preocupe!

Eu preparo a lancheira dele com porções adequadas.


Janela ou ponte seriam mais fáceis

: você quis que eu visse

covarde flor se despetalando em carnes.

Achei que era escolha e a culpa nasceu

- a sua e a minha - 

eu peço perdão todas as noites

e não espero mais a memória sorrir fingida

[ o teu rosto magro e morto grudou em mim ].


Perdi as contas das vezes sentada

: os olhos pregados na vidraça e a boca embaçando

os desenhos das gotas e delas os caminhos escorridos

enquanto chovia vazava a saudade

de te ver chegar para a sopa.

O cheiro da chuva é o seu cheiro

e no meu nariz de infância lateja

perfume de mãe.


Já estoquei comida

: acreditei que era bom garantir

que a loucura não me alcançasse

e vinguei sua morte a cada pacote de doce

- o carinho do açúcar das palavras não ditas - 

deixei o armário de mantimentos contar nossa história

de outro jeito bem mais bonito.


O buraco que você deixou eu preenchi

: a ciência me trouxe explicações

[ risquei a palavra órfã do dicionário mil vezes até rasgar ]

com o afago da minha avó na testa

enchi de descobertas a terapia

gravei na maternidade seu sobrenome

e encontrei razões inventadas ou não

para deixar um legado, ainda que.


Toco o tamanho da sua tristeza

: imensa feito minha vontade de gritar

que não sou, não fui e nunca serei

igual, parecida, um naco de você.

Eu deixo que a vida entre e revire

e mesmo com medo eu confio que posso.

— Sua ausência pariu a coragem que minhas pernas caminham.

[ para onde? ]


Desfio e desalinhavo o lençol branco

: como Arthur Bispo do Rosário eu puxo fio a fio

e costuro seus pedaços no pano 

- colcha de retalhos

que embrulhou sua dor pelas madrugadas.

Escuto na lembrança seu choro miúdo feito o punho

e me vejo no banho a riscar o box molhado

com palavras que eu guardei para você.

O tempo foi curto para nós.


Me pergunto

: o que faz o desejo sucumbir e o tempo,

suspenso, tornar-se um fardo?

As sete camadas insuficientes que me protegiam

calma e morna no teu útero

[ agora o poro exposto ao sal da lágrima ].

Me perco na tarefa de não repetir 

o padrão que te levou das manhãs que nascem.


Ele me pede uma história antes de dormir

: não conto do dia em que você decidiu fechar a boca

[ a morte não nina crianças ]

os seis meses infinitos sentindo o seu hálito esfriar.

Ele prefere os coelhinhos e livros de tocar

no papel a pelúcia que imita a pele macia e o pêlo fofinho.

A vida pode ser uma brisa suave

- ele me ensina e eu sigo aprendendo.


Meus braços avançam - galhos longos firmes fortes

: na tentativa de enlaçar o instante, me instauro árvore.

Apreender o sabor da fruta madura

amoras e o brilho do rebento ao sol,

tudo é vivo e anuncio a plenos pulmões 

que os brotos da primavera chegaram!

Imparável, colho flores para enfeitar a sala

e dou abrigo a quem precisa descansar no meu colo.


Poema disponível na revista Philos em: https://revistaphilos.com/imparavel-poema-de-daniela-bonafe/

A obra de arte que acompanha o poema é de autoria das artistas Park Chae Biole & Dalle, cortesia da exposição Alargar o tempo, tecer a vida, da galeria Galatea.