
A literatura como expressão do corpo feminino e suas memórias
São Paulo, 14 de julho de 2025.
Querida Sylvia Plath,
Pressinto, na pinça dos meus dedos empunhando a caneta, as falanges das esquecidas. É como se, pelas frestas por onde puxei as pelinhas, entre as unhas e as carnes de meus dedos polegar e indicador, entrassem os corpos, os ossos, as histórias das que viveram antes de mim: mulheres que escreveram e foram sumariamente apagadas.
Nem todas, é verdade, mas quase. Você ganhou sua cadeira no limbo, entre o forno e a lucidez, entre a palavra confessa e o desatino, naquele estranho lugar do meio. Te escrevo porque me sinto exatamente assim, não só eu, mas tantas outras iguais a mim, ocupando esse espaço entre uma coisa e outra, sem batismo.
Leio o seu nome e sei que nem tudo de você sumiu: sobrou a biografia manchada por uma dor que ninguém entende e poemas-facas que perfuram o peito. Eu gosto de você.
Já é tarde e é sempre tarde para nós. Corremos o dia inteiro e a vida toda tentando alcançar. Amaldiçoaram nossos sonhos e acreditamos que valemos pouco menos da metade. Então acordamos o mais cedo possível para rebocar o rosto, apertar a cintura, encher a cara de shakes (poderiam ser alucinógenos), tomar as pílulas, varrer para debaixo do tapete todas as imperfeições sentidas a solavancos, vestir creme e outros tons neutros sem nenhuma personalidade, suportar os calcanhares equilibrando-se em finos saltos de prazer da vista alheia; não sem antes bendizer a Deus, aos filhos e a todos os caóticos empecilhos de nos vermos como somos.
Sou escritora como você. Senti vergonha, por um tanto de anos, de saber conduzir as palavras ao coração dos outros. Como se fosse uma pecha, eu carreguei em segredo o meu jeito de fazer a vida valer a pena. Os diários também foram meu conforto, meus amigos de insônia e de amores genuínos.
Escrevo pouco e amiúde, devagar e sem pudor, sempre nas madrugadas, quando todos já capotaram, menos eu, ainda que eu tenha dado um cavalo de pau com o carro nas páginas, não, eu não posso sequer pensar em sair da linha. E quando me deito para dormir, o santo remédio do corpo esfolado que carrego, acordo num sobressalto com tua cara pregada na minha cabeça, assando seus neurônios com gás enquanto as crianças dormiam.
Acendo a luz sobre a mesa de cabeceira e tomo com um gole d'água dois comprimidos que descem rasgando, como se estivessem atiçando minha garganta para o grito que nunca dou; só ouso imaginá-lo. Ando alérgica ao cinza. O doutor me disse que vou morrer de falta de ar se continuar aqui. Parece que temos muitas coisas em comum, querida.
Penso em você há quatro dias, desde que recebi o convite para a escrita sobre o corpo. Eu não tive escolha. É como eu disse, você me invadiu por esse minúsculo espaço da derme sem proteção.
Não adianta me dizer que a culpa é minha por roer as unhas desde os nove anos e tempos depois, entender que sofro de dermatilomania na sessão de terapia. Foi você quem se aproveitou de mim e desse meu infortúnio para que eu denunciasse, outra vez como se fosse um karma, que nossos corpos permanecem presos, estejam vivos ou mortos.
Hoje é segunda-feira. Cozinhei, limpei, fiz compras, brinquei com o filho, um tanto de afazeres de férias e em todos eles eu vi sua beleza ímpar estampada, ora rindo da minha desgraça, ora chorando comigo.
Nada para nós. Não sobrou um minuto para o caderno e para o rito mágico de assombrar a página com nossas deformidades. Nenhum átimo para desejos e crueldade: o tempo esvaiu-se entre a panela de pressão e o vento secando as roupas que estendi loucamente no varal. Mas uma vez, escrever ficou para depois.
Agora estou cansada. A dor no corpo não amansa, as juntas rangem mais que as portas dos nossos castelos, sinto até que não me pertenço. Estou farta de me entregar como um cordeiro imolado aos caprichos e opressões dos homens. Se eu pudesse, minha amiga, me daria em sacrifício a mim mesma, em nome do meu próprio prazer e gozo. Mas essa carta não é um salmo de lamento, não se engane. A mesmice dos dias de agora não é similar à mesmice de dias anteriores. Há uma epifania no meio de tudo. Um presságio de que bons tempos viriam.
Um dia acordei decidida a vingar mais de vinte e cinco anos trancafiada numa gaveta. É que percebi que já tinha passado da hora e que, como você, eu poderia fazer o impensável. Abri a caixa de Pandora que alimentei dedicadamente e de lá nasceram corvos e árvores, balões coloridos e sombras, um mundaréu de presentes.
Desandei e fiz poemas das cicatrizes. Escrevi para os mínimos e reguei de delicadezas as cabeças das crianças. Fiz livros sobre sumiços, uma penca de nós sangrando a cada folha. Escrevi contos sobre as mortas, as mal nascidas, as dadas ao mundo sem piedade.
Eu não me escondi. Nunca mais eu quis a receita de vida perfeita e desde então foi diferente. Se te assusto com esse meu sufocamento de hoje, não se espante: pior era quando eu não existia.
Te escrevo também para contar que o mundo não mudou. Mudaram os endereços, as máquinas, alguns governos e dinheiros, mas no fundo, tudo está como antes e como sempre foi: continuam a nos aniquilar, pelas costas e também de frente, com a covardia típica dos algozes. Mas essa carta não é para te deixar embaraçada, a pensar que não valeu o enorme trabalho que teve vedando as janelas enquanto a alma suplicava por amor.
Nós é que mudamos.
Somamos mãos e abraços. Quando a solidão me visita, antes mesmo de abrir um livro, eu alcanço o telefone e as encontro: outras que escrevem. Não sei precisar quantas, somos uma horda de mulheres que seguem adiante entre rascunhos e publicações. Há velhas e novas, umas com mais peito, outras com mais bunda, todas com suas barrigas, pernas, vaginas, inteiras ou não, mas abrindo caminho e saudando umas às outras.
Nos rendemos coletivamente aos nossos mais recônditos anseios de penetrar o mundo com o que inventamos na escrita. Libidinosas, tomamos de assalto as prateleiras das bibliotecas e livrarias com nossos textos e bem se vê cada vez mais nosso sexo, nossas ideias, aquilo que criamos e sentimos, tomando concretude. É uma realidade posta: resistimos, ainda que.
Queria que você visse isso que estamos criando, que estivesse aqui para mostrar os dentes conosco ou para dançar a comemoração de seu único romance sendo ovacionado. Seria bonito te encontrar fora da redoma, com as escápulas à mostra num lindo vestido, de tecido leve o suficiente para te fazer flutuar bem longe da dureza do que passou.
É engraçado refletir que, apesar de tudo, ainda repito algumas autossabotagens. Hoje mesmo eu deixei que a rotina extirpasse até a minha última gota de energia e só me sentei aqui, imbuída de respeito e coragem para te escrever, quando senti uma pressão forte nas minhas costas. Acho que era você, sentando-se sobre mim, como se eu fosse uma égua feita para te levar além.
No lombo eu carrego tudo o que não posso deixar para trás, aquilo que me é caro e que não nego, mesmo sendo esbofeteada. Você sabe que eu jamais te deixaria amordaçada, afundando no esquecimento.
E assim essa carta se desenha. Meu caderno de couro - e olha que nem consumo mais nada animal, isso dá uma dimensão da antiguidade do item e de como sou lenta a devorá-lo com manuscritos - não reluta em aceitá-la. Ele, mais do que ninguém, sabe da importância da minha mão gelada a se debruçar sobre suas folhas. Cada vez que isso acontece, uma outra realidade se inaugura e tudo parece entrar em sincronicidade. Nessas horas sou feliz e meu corpo voa, imenso, no céu tão azul que nem sei dizer.
Sentirei saudades: desta conversa, do teu cabelo tão arrumado emoldurando seus olhos profundos, da vontade de fazer caber a alegria que sinto em quatro páginas, da necessidade de aventar a novidade de que sim, contra tudo e contra todos, estamos aqui.
Quando nos faltar um braço, que nos sobre o cérebro. Quando nos faltar uma perna, que nos sobre a voz. Quando nos faltar um olho, que nos sobre os pelos. Quando nos faltar a boca, que nos sobre a mão. Quando nos faltar o ar, que nos sobre o coração. Quando nos faltar o corpo todo, que nos sobre a memória nos livros.
Vivas! E para sempre.
Com amor,
Daniela Bonafé