
7 dias depois
Não durmo.
Ainda ouço os sons:
das minhas mãos batendo contra a dopamina;
do sugador aspirando meu dentro;
da sirene da incubadora nunca usada;
do choro baixo de quem amava como eu;
do silêncio em que você veio e no qual ficou;
da dor de te ver só uma vez.
O som do vazio.
129.600 minutos
Desbota,
dia após dia,
a única imagem
guardada de ti.
Desejo atordoado
de eternizar
teu rosto
morto.
O pouco de você,
que me foi concedido,
ainda dói.
Com alegria,
lembraria para sempre
do que não vivi
ao teu lado.
Em dias cinzas,
penso que não serei feliz
sem esse pedaço.
Tem areia morna
sob os meus pés
que afundam sós,
na vã tentativade seguir à procura.
O que há em mim
é o mesmo que move
outros animais.
Por agora, sobrevivo.
dia 18, 7 anos depois
Era a sétima noite que eu sonhava com tua partida.
Outras mães foram preparadas para chegadas,
eu fui preparada para a despedida.
Já sabia de tuas horas antes da tua passagem.
Com um amor imenso eu abracei minha barriga e disse: vai ficar tudo bem, querida.
Ah! Minha Mãe, Senhora do tempo e das mulheres,
te roguei por mim e não pela menina.
Como é difícil ficar com o depois,
acordar e ainda achar beleza na paisagem...
Dia 18 era véspera.
Fiquei contente de estar presente, lúcida, viva,
vendo tua travessia singela e silenciosa.
Uma princesa das águas calmas esteve em mim.
Rainha da noite escura,
é seu brilho que ilumina meus pensamentos hoje.
2022
Há tempos eu eternizo você nas palavras.
Não, não me canso.
Nunca me falta o que dizer.
Mas ninguém pergunta nada para mim.
Devem ter esquecido.
Ou acham bobagem revisitar histórias.
É por isso que esse novo poema existe.
É meu jeito de conversar sobre sua existência.
A brevidade não apaga a importância.
Nem a grandeza.
Nem a vontade de ver teu nome completo escrito em algum lugar.
Um lugar da vida comum de uma criança.
Poderia ser num boletim da escola.
Ou numa cartinha de Dia das Mães.
Mas o verbo no futuro do pretérito é claro.
Será a primeira vez que estará registrado fora das certidões.
Num lugar capaz de te acolher do tamanho que você é.
Heloísa Bonafé de Andrade.
Queria te contar que meu útero continua a me puxar para frente.
E que eu ainda te amo com as vísceras.
Dez anos depois.
Espaço EscreViventes. Uma parceria ‘cassandra’ e coletivo… | by cassandra | revistacassandra