
NAUTILUS
eu queria uma palavra gorda
em seus contornos, de
textura macia, cheia de ar
morno, leve, capaz de
flutuar para fora.
uma palavra que salva,
aquela que a gente guarda no bolso para noites que
gritam em nossos ouvidos
enquanto estamos
pendurados na ponte.
uma palavra com vontade,
capaz de qualquer sonho na
boca, no estômago, na
orelha, sussurrando ecos de
gentileza.
a palavra indizível que cura.
que fosse pronunciada aos
berros e em todos os cantos
para que os olhos se
abrissem e vissem: a perfeição
da concha de um nautilus.
ELA ERA POESIA PASSARINHO
e voava esparsa longe subia nua
vagueando só vez ou outra junto
vez em quando cantarolando a
poesia de seu dentro livre e leve
ia solta sem prender asa no velho
galho mundo jeito de voar poemas.
PANDEMIA
Doeu em mim - assim demais da conta - que perdi o sono e o prumo, doeu sentir tantas bocas caladas e tantos braços cruzados e tantos olhos fechados que a dor foi nesse tanto - de me perder de mim e da minha vista de dentro e de fora.
Um chão sem beira e nem borda porque não, a terra não é plana, é um buraco: cheio de sorrisos mortos e de narcisos vivos enfeitando a dor que não acaba.
E as manhãs acordam e eu viro noites pregada em lusco-fuscos alarmantes de números que me derrotam, que me envergonham, que me preocupam e eu não sei mais viver levezas.
Era tua irmã, era minha amiga, seu pai, o filho do moço do lado de casa, nossa conhecida, todos os nossos iguais, eram nossos espelhos… mas não houve tempo.
E nem respeito.
Então por enquanto não abro as asas, não pouso e se abro a janela é para gritar disparates e bater barulhos contra essa dor, e não para ver os meninos brincando porque até eles, até eles, valha-me Deus,
eles também doem fechados em seus quartos de existir, em suas telas de exibir a vida: a vida que não tocamos.
MÃE
o que você queria era me chamar
me gritar retumbante na tua voz
que me irritava no estridente som
e tantas vezes te ouvi no mesmo tom
repetidas vezes, repetidas vezes,
repetidas tuas formas de me chamar
para testar que eu estava e
eu sempre estou e te amo grande,
mas ainda sofro com teus gritos pela casa
que ecoam
ecoam
ecoam
ecoam
na mãe que eu sou e escuto
porque sei que você queria me chamar
me chamar de mãe
para eu te olhar e te ver e confirmar
o nosso acordo desde que somos assim
Eu para você e você para mim.
PENSAMENTOS DE GAVETA
queria o som arranhado da gaveta da mesa de cabeceira,
o som do velho móvel que dizia coisas de ontem
e segredava a vida da avó, da mãe, aquelas confissões
escritas em papel fininho e amarelado pelo tempo,
registros de uma época em que a vida não era assim corrida.
era a memória daquele som arranhado que a acalmava,
eram as anotações mofadas que confortavam seu coração jovem e perdido e pouco acostumado com o jeito torto de amar
nesses novos tempos em que não há paradas para respiro,
sussurros para dormir ou gavetas para guardar.
MEMÓRIAS
naquela sua barriga eu era som,
era luz e devia ter profundeza
porque eu era água,
eu era assim, um pouco sua
e outro pouco de mim.
devia ter calor
naquele naco de barriga quente
em que eu era sangue,
em que eu era uma orelha pequena
de ouvido astral e grande.
minha mão era olho
e meu olho estava deserto disso.
eu, transparente, igual ao corpo
de uma groselha do mar,
já vivia memórias de não lembrar.
QUANDO TUDO COMEÇOU
Ela ditava cada sílaba e eu, letra por letra, desenhava na cabeça uma arara, uma melancia, um cachorro cheio de orelhas. Eu ia juntando som, letra e desenho, enfeitando as linhas do caderno de caligrafia. Então ela vinha enxugando as mãos no avental de lavar roupas no tanque, só para dar uma olhada na minha presteza de lição. Apontava com o dedo úmido onde eu devia apagar com aquela borracha branca que esfarelava. A borracha tinha um homem estampado em azul que era feio de dar dó e a cada erro, o coitado perdia mais uma parte da cabeça. Ela dizia que eu era caprichosa e que estava fazendo bonito. Eu me enchia de sorrisos e orgulho porque estava crescendo. Foi minha mãe que me ensinou a escrever e continuo escrevivendo.