7 POEMAS


NAUTILUS


eu queria uma palavra gorda

em seus contornos, de

textura macia, cheia de ar

morno, leve, capaz de

flutuar para fora.

uma palavra que salva,

aquela que a gente guarda no bolso para noites que

gritam em nossos ouvidos

enquanto estamos

pendurados na ponte.

uma palavra com vontade,

capaz de qualquer sonho na

boca, no estômago, na

orelha, sussurrando ecos de

gentileza.

a palavra indizível que cura.

que fosse pronunciada aos

berros e em todos os cantos

para que os olhos se

abrissem e vissem: a perfeição

da concha de um nautilus.



ELA ERA POESIA PASSARINHO


e voava esparsa longe subia nua

vagueando só vez ou outra junto

vez em quando cantarolando a

poesia de seu dentro livre e leve

ia solta sem prender asa no velho

galho mundo jeito de voar poemas.



PANDEMIA


Doeu em mim - assim demais da conta - que perdi o sono e o prumo, doeu sentir tantas bocas caladas e tantos braços cruzados e tantos olhos fechados que a dor foi nesse tanto - de me perder de mim e da minha vista de dentro e de fora.

Um chão sem beira e nem borda porque não, a terra não é plana, é um buraco: cheio de sorrisos mortos e de narcisos vivos enfeitando a dor que não acaba.

E as manhãs acordam e eu viro noites pregada em lusco-fuscos alarmantes de números que me derrotam, que me envergonham, que me preocupam e eu não sei mais viver levezas.

Era tua irmã, era minha amiga, seu pai, o filho do moço do lado de casa, nossa conhecida, todos os nossos iguais, eram nossos espelhos… mas não houve tempo.

E nem respeito.

Então por enquanto não abro as asas, não pouso e se abro a janela é para gritar disparates e bater barulhos contra essa dor, e não para ver os meninos brincando porque até eles, até eles, valha-me Deus,

eles também doem fechados em seus quartos de existir, em suas telas de exibir a vida: a vida que não tocamos.



MÃE


o que você queria era me chamar

me gritar retumbante na tua voz

que me irritava no estridente som

e tantas vezes te ouvi no mesmo tom

repetidas vezes, repetidas vezes,

repetidas tuas formas de me chamar

para testar que eu estava e

eu sempre estou e te amo grande,

mas ainda sofro com teus gritos pela casa

que ecoam

ecoam

ecoam

ecoam

na mãe que eu sou e escuto 

porque sei que você queria me chamar

me chamar de mãe

para eu te olhar e te ver e confirmar 

o nosso acordo desde que somos assim

Eu para você e você para mim.



PENSAMENTOS DE GAVETA


queria o som arranhado da gaveta da mesa de cabeceira,

o som do velho móvel que dizia coisas de ontem

e segredava a vida da avó, da mãe, aquelas confissões

escritas em papel fininho e amarelado pelo tempo,

registros de uma época em que a vida não era assim corrida.

era a memória daquele som arranhado que a acalmava,

eram as anotações mofadas que confortavam seu coração jovem e perdido e pouco acostumado com o jeito torto de amar

nesses novos tempos em que não há paradas para respiro,

sussurros para dormir ou gavetas para guardar.



MEMÓRIAS


naquela sua barriga eu era som, 

era luz e devia ter profundeza

porque eu era água,

eu era assim, um pouco sua

e outro pouco de mim.

devia ter calor

naquele naco de barriga quente

em que eu era sangue,

em que eu era uma orelha pequena

de ouvido astral e grande.

minha mão era olho

e meu olho estava deserto disso.

eu, transparente, igual ao corpo

de uma groselha do mar,

já vivia memórias de não lembrar.



QUANDO TUDO COMEÇOU


Ela ditava cada sílaba e eu, letra por letra, desenhava na cabeça uma arara, uma melancia, um cachorro cheio de orelhas. Eu ia juntando som, letra e desenho, enfeitando as linhas do caderno de caligrafia. Então ela vinha enxugando as mãos no avental de lavar roupas no tanque, só para dar uma olhada na minha presteza de lição. Apontava com o dedo úmido onde eu devia apagar com aquela borracha branca que esfarelava. A borracha tinha um homem estampado em azul que era feio de dar dó e a cada erro, o coitado perdia mais uma parte da cabeça. Ela dizia que eu era caprichosa e que estava fazendo bonito. Eu me enchia de sorrisos e orgulho porque estava crescendo. Foi minha mãe que me ensinou a escrever e continuo escrevivendo.