Esquecer é morrer.
A memória, essa esfinge a ser decifrada, que oscila entre permanências e apagamentos, se faz e refaz no cotidiano, reelaborando a nossa existência.
O real só existe porque é lembrado.
Nosso desejo de lembrar acena para o nosso medo da morte.
Lembrar é resistir ao tempo que nos devora e que certamente se esgota.

Revisitar o passado com generosidade é uma tarefa de coragem e resiliência. O que nos moveu? A mim e a todos?
A divindade grega Mnemosyne aponta caminhos para compreender: só estamos presentes quando existe lembrança e a ausência ou a perda se dão no esquecimento.
A linguagem atravessa a memória. As palavras escritas, a oralidade e a linguagem corporal, se misturam aos cheiros, gostos, sensações, sentimentos e outras percepções físicas, espaciais, etc.

Mnemosyne é a grande mãe de todas as musas. Suas 9 filhas com Zeus, na mitologia grega, representavam o elo entre a Memória e as Artes.
As Artes existem para celebrar a Memória, suas rupturas, permanências e constante transformação. Através das Artes nos humanizamos e de fato existimos.
A tessitura da Memória, que costuramos e descosturamos, individualmente e coletivamente, também pode ser relacionada do mito de Penélope e seu incessante movimento de alinhavar e desatar linhas.

A urdidura da Memória que costuramos em vida é de enganos, assombros, aprendizados, num eterno (enquanto vivos) fazer-se vivo.
Quando lembramos do que nos inspirou, daquilo que nos trouxe respiro e pertencimento, das coisas que nos eram caras, das experiências mais íntimas, nos afirmamos aqui e agora, na cumplicidade silenciosa do outro - que também lembra. É por isso que desenvolvemos características geracionais, para nos sentir parte de um todo maior, que como nós, ondula entre o imaginado e os fatos.

O que é real? O que é imaginado?
A memória nos prega peças e por isso, se o outro reconhece, percebe, vê, constata, vive junto, dizemos que é real.
Escrever para lembrar é um gesto bonito. Ele pode ser encontrado nos diários, cartas, livros de memórias, bilhetes... É nossa forma de assegurar nossa permanência para além do tempo. Porque maior que o medo da morte, é o medo de ser esquecido.
Ser esquecido é jamais ter existido. Escrever para lembrar aquieta esse medo.

Os livros, as séries, os filmes, as músicas, o design dos objetos, tudo existe para presentificar e fazer perdurar a Memória.
As Artes, e aqui incluo a Literatura, são tentativas de enfrentar nossa transitoriedade. Lançamos mão delas para lidar melhor com nossas fragilidades.
Nesse meu registro em formato de texto, revela-se não só o que eu recordo das décadas de 80 e 90, mas também o que habita a Memória de muitas pessoas e, além: o que alimentava nossos sonhos.