Cortejo da Memória

A rua aquieta enquanto passamos.

No parque, crianças acalmam as pernas.

Do alto do trepa-trepa, avistam:a vida seguindo atrás de quem já dorme.

Perseguimos a lembrança do seu riso.

Silêncio.

É difícil aceitar

ー até ontem bastava um telefonema.

Um braço me enlaça.

O sol aquece o frio em que ficamos.

A figueira está lá[são mais de cem anos]e nós só duramos um copo.

Ela parece sorrir da força de suas raízes.

Eu choro.

Os carros param e atravessamos.

Ainda há respeito.

Não estamos perdidos.

Onde ficou teu semblante forte?

O jovem que ousava discrição?

Me assombro.

Sou interrompida pela tua ausência.

Não é possível que as nuvens continuem nuvens

[vagando impassíveis]

enquanto andamos atrás de um contorno

e do desejo que ainda fosse ano passado.

Uma viagem no tempo:

alguns almejam com as vísceras

o futuro latejante

os brilhos lusco-fusco de modernidade

os rompantes de tecnologia

[esse acessório brocado de ilusão].

Eu ainda prefiro o retorno

para os remotos vazios de ócio

ー aqueles que ocupavam nossas tardes na infância.

As nuvens não eram nuvens:

eram deuses

cachorros

baleias

toda a sorte de belezas: 

inventávamos a felicidade até anoitecer.

Alguns conversam.

Reencontros.

Não entramos por aquele portão.

Teu rosto pela última vez

e um sertão no caminho de volta.

E muitos dias e noites que virão.

As notícias falam de tanta gente.

Uma multidão na feira.

Quem me importa?

Meu amigo morreu.

Uns dizem que foi cedo.

Outros lembram que era engraçado.

Aliviados exclamam que parou de sofrer.

Eu repito: meu amigo morreu.

Amanhã é domingo.

Tua partida arranha minhas bochechas.

Embrulho meu corpo

[envolvo o dorso com papel de seda preto]

e o guardo numa caixano fundo do armário

esperando um foguete que me transporte

: para dentro de um coração.


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